20 de março de 2012

Vidas Inocentes - Parte 37


*** Carolina ***


E eu não poderia ver mais aqueles olhos a pedir-me justificações, carregados de dor, e sentia-me tão culpada. Entrei no avião, e pensava em tudo, para aquela imagem sair da minha cabeça. O Mário, ali parado. Á minha espera, como sempre esteve.


Já passou um mês. Eu e o Mário não perdemos o contacto. Falamos todos os dias, nem que seja só uma mensagem trocada, ou uma chamada feita á pressa. Tenho tido muitos problemas com o Daniel, por causa do bebé dele e da Sheila, e claro como água, também por causa das mensagens e chamadas do Mário.
Olhamos um para o outro, e já não nos encontramos. Á noite, já não nos procuramos na cama. Parece que é um castigo. Uma cruz que temos que carregar ás costas. Mas ambos sabemos que não é. Somos jovens. Temos uma vida pela frente. Simplesmente estamos acomodados um ao outro. Ninguém quer tomar o inicio da tal conversa. A conversa do fim.
Maria- Mana, o Daniel vai buscar o Santiago para passar o fim-de-semana connosco ?
Carolina- Sim mana. Ele já foi. Aliás deve estar a chegar.
Ouvimos uma chave na porta, e a Maria lá foi a correr para encher o pequeno Santiago de beijos.
Daniel- Cuidado Maria. Não queremos acorda-lo, não é ?
Maria- Quando é que tu e a mana têm um bebé também ?
Ele riu-se.
Daniel- Quando o Santiago, for maiorzinho.
O meu telemóvel começou a tocar. Era o Mário. Corri, a tentar passar por despercebida, para o pátio.
Daniel- Atende lá o teu amigo.
Não tinha percebido que ele vinha atrás de mim.
Carolina- Daniel, por favor, não vamos discutir hoje de novo. Não é um ambiente bom para a minha irmã, quanto mais para um bebé de um mês.
Daniel- Se tu não fosses assim, não teríamos que discutir.
Carolina- Assim ? Assim como ? Eu faço tudo para te agradar ! Há quanto tempo não me dás um elogio ?
Daniel- Não tenho razões para te elogiar.
Virei-lhe as costas.
Chegou a noite. Fui para o quarto e ele estava a dormir com o Santiago. Tirei-o da cama, e pus-o na alcofa. Olhei-o por minutos. Não tinha muitas expressões do Daniel. Talvez fosse muito pequeno, para já ter expressões dos pais. Tapei-o, e acariciei-lhe a bochecha. Um bebé trazia sempre muita felicidade, e gostava do Santiago como se ele me pertencesse. A Sheila não suportava a ideia que o Santiago estivesse sobre os meus cuidados. Nem que fosse por um mero fim-de-semana. E percebia, que o Daniel evitava que fosse eu a fazer as coisas ao Santiago.
Depois olhei o Daniel. Num sono profundo, com o peito destapado. Ajeitei a roupa da cama, e fui vestir o pijama. Vesti a minha melhor camisa de noite, queria seduzir o Daniel, mas não o queria acordar. Talvez de manhã. Deitei-me.
Daniel- Vieste para a cama tão tarde.
Carolina- Acordei-te ? Desculpa. Já deitei o Santiago na alcofa.
Daniel- Não faz mal. Está bem.
Virou-se para o outro lado, pronto a ignorar-me.
Abracei-o, e acariciei-lhe o peito. Ele não se mexeu. Senti-me a evadir uma propriedade que não era minha.
Carolina- Vira-te para mim.
Daniel- O que queres a estas horas Carolina ? Estou cansado, deixa-me dormir.
Carolina- Já não me amas ?
Escondi a cara nas costas dele, como se tivesse medo da resposta. Ele suspirou.
Daniel- Amo.
Carolina- Não da mesma maneira ?
Daniel- Da mesma maneira. Mas já não há faísca, nada de novo para descobrir. Já nos conhecemos.
Carolina- E se todos os casais pensassem assim ? A faísca diminui, conhece-se tudo, então ignora-se e deixa-se tudo a morrer na caixa.
Ele não respondeu, continuei a falar como se estivesse a confessar-me. Mesmo sem resposta, deixei tudo sair.
Carolina- Nós podemos voltar a recuperar a faísca. Todos os dias penso como será o nosso amanha. Se será o dia em que te vais abrir, e dizer-me o que te incomoda. Tu não deves saber, mas tenho planos para nós. Casamento, uma casa, crianças, o cheiro a família, alegria todas as manhas, jantares em família. Só não quero viver como a minha mãe, que morreu, e a única alegria dela eramos nós, as filhas. Ela amava o meu pai, mas não recebia o mesmo dele. Ele simplesmente amava porque já estava habituado que assim fosse. Não quero isso para mim ! Quero fazer amor como se fosse sempre a primeira vez, quero viver. Não quero ficar presa sempre a uma pessoa, que não me deseja.
E fui diminuindo a voz aos poucos. Já quase sussurrava, e tinha os olhos molhados com a subida das lágrimas. Perdi a voz e calei-me, não sabia se ele estava a dormir. Não podia estar, ele tinha que ter ouvido tudo o que eu disse.
Daniel- Não devias ter planeado. As coisas nunca correm como queremos, e depois desiludimos-nos.

4 comentários: