27 de dezembro de 2011

Vidas Inocentes - Parte 29


*** Carolina ***

Luisa- Então miúda conta-me como está a ser a vida em Lisboa ?
Carolina- Está a ser boa, acho eu.
Luisa- Não tens saudades disto pá ?
Carolina- Acredita que tenho. Ás vezes só me apetece fugir para aqui.
Luísa- Não vais ao cemitério ?
Carolina- Logo se vê. Estou farta de andar.
Luísa- O carro já está ali.
Carolina- De quem ?

Continuámos a andar, e vi mesmo um carro, e um rapaz sentado ao volante.
Carolina- Quem é ? Namorado novo ?
Luísa- Anda lá. Vais á frente.
Ainda não tinha chegado perto do carro, e já tinha percebido que era o Mário. Não sabia como lhe haveria de falar, ou sequer olhar.
Mário- Quem é vivo sempre aparece.
Sorri. Peguei no telemóvel, para mandar mensagem ao Daniel.
" Meu amor, já cheguei. A viagem correu bem. Logo á noite ligo-te. Amo-te. Dá um beijo á Maria e ao pai por mim. "

Luísa- Mário, deixa-me junto ao café da minha casa.

Ainda bem que me ia embora. A presença dele estava-me a incomodar. Sentia-me mal ali.
Luísa- Miúda tu vais para a casa dos teus pais ?
Carolina- Sim vou.
Luísa- Então logo passo lá.
Carolina- Mas eu vou contigo, agora.
Luísa- Não miúda, tu vais com o Mário. Vocês precisam de falar.
Eu tremi. Ela saiu do carro, e ele continuou a conduzir, sem se pronunciar. Reparava que tinha um olho posto em mim, e outro em mim. Sentia-o com vontade de falar, mas com receio. Limitei-me a estar calada. Não tinha nada para dizer.
Parou junto a minha casa.
Mário- Vai.
Carolina- Han ?
Mário- Eu sei que não queres falar. Não te vou obrigar.
Carolina- Anda Mário.

Saí do carro, e ele também. Assim que abri a porta, deu-me vontade de chorar. O sofá que tantas vezes eu adormeci junto com a minha mãe. A mesa que tantas vezes lá comi com a companhia da minha mãe.
Ele pôs-me a mão em cima do ombro.
Mário- Calma miúda, eu sei que custa.
Eu suspirei, e pus as malas no chão. Fui ao quarto dos meus pais. Continuava tudo na mesma. O retrato da minha mãe, por cima da cama.
Mário- É melhor ir-me embora.
Carolina- Não. Espera.
Ele estava ali parado á minha frente. Já sentia saudades daquele olhar doce que ele tinha. O cabelo desarrumado dele continuava na mesma. Cor de pele queimada. Nem me acreditava que estava de novo ao pé do Mário. Logo o Mário. A grande marca da minha vida.
Carolina- Olha, desculpa. Não mereceste o que te fiz. Eu sei que te fiz passar um mau bocado. E não te condeno pelo facto de teres-te cansado de lutar por mim. É normal. Fui uma estúpida. Desculpa Mário. Só assim poderei ficar descansada.
Mário- Não tens que pedir desculpa. Eu é que não fui forte o suficiente para aguentar o barco sozinho. Estava a sentir a tua dor de uma maneira, que era como se fosse comigo. Como se estivesse a acontecer debaixo do meu tecto.
Não aguentei e abracei-o.
Mário- Continuas a usar o mesmo perfume.

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